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A apneia do sono aumenta o risco de infarto? O que a ciência diz

A apneia do sono aumenta o risco de infarto? O que a ciência diz

COMO A APNEIA DO SONO SOBRECARREGA O CORAÇÃO DURANTE A NOITE?

Em condições normais, o sono é um período de recuperação para o coração. A pressão arterial cai, a frequência cardíaca diminui e o sistema cardiovascular descansa. Na apneia do sono, esse processo é repetidamente interrompido.

Cada episódio de apneia segue um padrão previsível e agressivo para o coração. A via aérea se obstrui, a respiração para, o oxigênio no sangue cai, o cérebro detecta a emergência e aciona o sistema nervoso simpático (o mecanismo de resposta ao estresse do organismo). Isso provoca uma descarga de adrenalina que eleva abruptamente a pressão arterial e acelera o coração, forçando-o a trabalhar com intensidade em plena madrugada.

Em pacientes com apneia grave, esse ciclo pode se repetir mais de 30 vezes por hora. São centenas de sobrecargas cardíacas por noite, repetidas todas as noites, durante meses ou anos. O resultado cumulativo desse processo sobre o coração e as artérias é expressivo e mensurável.

 

APNEIA DO SONO E INFARTO: O QUE OS ESTUDOS MOSTRAM?

As evidências científicas sobre a relação entre apneia do sono e infarto do miocárdio (ataque cardíaco) são consistentes e crescentes. Estudos de longo prazo mostram que pacientes com AOS (Apneia Obstrutiva do Sono) não tratada têm risco aumentado de desenvolver doença coronariana e sofrer infarto em comparação a pessoas sem a condição.

Pesquisas também identificaram que infartos ocorrem com frequência desproporcional nas horas da madrugada e início da manhã em pacientes com apneia do sono, exatamente o período em que os episódios de apneia são mais intensos e frequentes. Esse padrão diferente de distribuição temporal dos eventos cardíacos é considerado uma evidência indireta forte da relação causal entre apneia e infarto.

A gravidade da apneia importa. Pacientes com apneia grave, definida por mais de 30 episódios por hora de sono, têm risco cardiovascular significativamente maior do que aqueles com apneia leve ou moderada. No entanto, mesmo formas mais leves da condição já apresentam impacto cardiovascular mensurável.

 

POR QUE A QUEDA DE OXIGÊNIO DURANTE O SONO É TÃO PERIGOSA PARA O CORAÇÃO?

O coração é extremamente sensível às variações nos níveis de oxigênio no sangue. Durante os episódios de apneia, a saturação de oxigênio (SpO2 — percentual de oxigênio transportado pelo sangue) pode cair de forma abrupta e repetida, criando um estado de privação intermitente que tem consequências específicas sobre o músculo cardíaco e as artérias coronárias.

Essa hipóxia intermitente (privação repetida de oxigênio), como é chamada na medicina, promove inflamação nas paredes das artérias, aumenta o estresse oxidativo, favorece a formação de placas ateroscleróticas e torna o sangue mais propenso à coagulação. Todos esses mecanismos convergem para aumentar o risco de obstrução de uma artéria coronária, que é o mecanismo do infarto.

Além disso, a queda de oxigênio aumenta a produção de eritropoietina (hormônio produzido pelos rins que estimula a produção de glóbulos vermelhos), tornando o sangue mais espesso e viscoso. O sangue mais viscoso flui com mais dificuldade pelas artérias e aumenta o risco de formação de coágulos.

 

APNEIA DO SONO E ARRITMIAS CARDÍACAS: QUAL É A LIGAÇÃO?

A relação entre apneia do sono e arritmias cardíacas é uma das mais bem estabelecidas na cardiologia do sono. A FA (Fibrilação Atrial), que é a arritmia cardíaca sustentada mais comum em adultos, tem prevalência significativamente maior em pacientes com AOS (Apneia Obstrutiva do Sono) não tratada.

Os mecanismos que explicam essa associação incluem o estiramento das câmaras cardíacas causado pelas variações de pressão intratorácica (pressão dentro do tórax) durante os episódios de apneia, a ativação do sistema nervoso simpático que altera a eletricidade do coração e a hipóxia intermitente (privação repetida de oxigênio) que danificam o tecido de condução elétrica cardíaca.

Pacientes com FA (Fibrilação Atrial) e apneia do sono não tratada também têm maior taxa de recorrência da arritmia após tratamentos como ablação cardíaca (procedimento que elimina o foco elétrico da arritmia). Isso reforça a importância de tratar a apneia como parte essencial do manejo das arritmias em pacientes com essa combinação.

 

MORTE SÚBITA E APNEIA DO SONO: EXISTE RELAÇÃO?

Sim. Estudos mostram que a morte súbita cardíaca, que é a parada cardíaca inesperada sem aviso prévio, ocorre com maior frequência nas horas da madrugada em pacientes com apneia do sono. Na população geral, a morte súbita tem pico de incidência nas primeiras horas da manhã. Em pacientes com apneia, esse pico se desloca para o período entre meia-noite e às seis da manhã, coincidindo com o período de sono mais profundo e de maior frequência dos episódios de apneia.

Esse dado é clinicamente relevante porque sugere que a apneia do sono cria um substrato de risco cardiovascular elevado durante o sono, período em que o paciente não tem como reconhecer sintomas ou buscar ajuda.

A boa notícia é que o tratamento adequado da apneia do sono reduz significativamente esse risco, normalizando o padrão de distribuição dos eventos cardiovasculares e protegendo o coração durante as horas de sono.

 

TRATAR A APNEIA DO SONO PROTEGE O CORAÇÃO?

As evidências apontam que sim, especialmente para pacientes com apneia grave e alto risco cardiovascular. O tratamento com CPAP (Pressão Positiva Contínua nas Vias Aéreas, dispositivo que mantém a via aérea aberta durante o sono por meio de fluxo de ar pressurizado) é o mais estudado e mostra redução dos episódios de apneia, melhora da saturação de oxigênio, queda da pressão arterial noturna e redução dos marcadores inflamatórios associados ao risco cardiovascular.

Para pacientes com apneia e hipertensão resistente (pressão alta que não responde adequadamente a três ou mais medicamentos), o tratamento da apneia frequentemente resulta em melhora do controle pressórico, permitindo redução das doses de medicamentos anti-hipertensivos.

O emagrecimento, quando indicado, é a abordagem com maior potencial de resolução definitiva da apneia em pacientes com obesidade. A perda de peso reduz a gordura depositada na região do pescoço e melhora a função respiratória durante o sono, com benefícios cardiovasculares que vão muito além do tratamento da apneia isoladamente.

 

QUANDO PROCURAR UM CARDIOLOGISTA POR CAUSA DA APNEIA DO SONO?

A avaliação cardiológica é indicada nas seguintes situações:

     Diagnóstico já confirmado de AOS (Apneia Obstrutiva do Sono), especialmente a moderada ou grave

     Ronco alto com pausas na respiração relatadas pelo parceiro

     Pressão alta de difícil controle, especialmente se os valores são mais elevados pela manhã

     Palpitações frequentes ou diagnóstico de FA (Fibrilação Atrial)

     Cansaço excessivo durante o dia com histórico de ronco intenso

     Obesidade com pescoço espesso e múltiplos fatores de risco cardiovascular

     Histórico de infarto ou AVC (Acidente Vascular Cerebral) com suspeita de apneia não investigada

Para pacientes em Rondonópolis e região, o cardiologista investiga a apneia do sono como parte do rastreamento cardiovascular completo, especialmente em pacientes com hipertensão resistente, arritmias ou perfil de risco elevado para infarto.

 

PERGUNTAS FREQUENTES

1. A apneia do sono leve também aumenta o risco de infarto?
O risco cardiovascular aumenta progressivamente com a gravidade da apneia. Formas leves têm impacto menor, mas ainda mensurável. Em pacientes com outros fatores de risco cardiovascular presentes, mesmo a apneia leve justifica tratamento e acompanhamento.

2. Mulheres também têm risco cardiovascular aumentado pela apneia?
Sim. Embora a apneia seja mais prevalente em homens, mulheres com apneia do sono também têm risco cardiovascular aumentado. Após a menopausa, a prevalência da apneia em mulheres aumenta significativamente e o impacto cardiovascular é comparável ao observado nos homens.

3. O CPAP (Pressão Positiva Contínua nas Vias Aéreas) reduz o risco de infarto?
Estudos mostram que o CPAP melhora marcadores cardiovasculares como pressão arterial, frequência de arritmias e marcadores inflamatórios. O impacto direto na redução de infartos é mais evidente em pacientes com apneia grave e alto risco cardiovascular.

4. É possível ter apneia do sono sem roncar?
Sim, embora seja menos comum. A apneia sem ronco evidente é mais frequente em mulheres e pode se manifestar principalmente por cansaço diurno, despertares frequentes e sono não reparador sem a característica do ronco alto.

5. A apneia do sono pode ser confundida com insônia?
Sim. Os despertares frequentes causados pela apneia podem ser interpretados como insônia pelo paciente. A diferença está nos outros sintomas associados, especialmente o ronco, o cansaço diurno intenso e os relatos do parceiro sobre pausas na respiração.

 

CONCLUSÃO

A apneia do sono não é apenas um problema de ronco ou de qualidade de sono. É uma condição cardiovascular que sobrecarrega o coração noite após noite, aumenta o risco de infarto, favorece arritmias e eleva a pressão arterial de forma que muitas vezes não responde aos tratamentos convencionais.

O diagnóstico e o tratamento precoce fazem diferença real na proteção do coração. Cada noite com AOS (Apneia Obstrutiva do Sono) não tratada é uma noite em que o coração trabalha além do que deveria, acumulando um risco que cresce silenciosamente.

Para quem vive em Rondonópolis e região e suspeita de apneia do sono, a avaliação cardiológica é o caminho mais seguro para investigar o impacto dessa condição no coração e iniciar o tratamento adequado antes que o dano se torne irreversível.


Revisão médica: Dr. Renato Costa Jr. — Cardiologista | CRM 6585 | RQE 2485123
As informações deste artigo têm caráter educativo e não substituem a consulta médica.  

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